terça-feira, 31 de julho de 2007

EMPREGO É O QUE CONTA

Apesar desse frio que nos fez tirar o casaco do armário e, principalmente, apesar de estarmos já em agosto, um mês da pesada, aqui e ali pinta uma boa notícia. Que bom!
Essa eu faço questão de dar porque trata do problema mais sério do país – o emprego. Tudo o mais é decorrência. Se você não tem emprego, principalmente para a juventude, não pode falar em segurança. Todo mundo precisa viver de alguma de alguma coisa, de preferência do trabalho decente.
Mas se não aparece o emprego, ainda que com esses salários minguados, alguma coisa o sujeito tem de fazer para levar comida para casa. A pior delas é, sem dúvida, recorrer ao crime.Outra, mais deprimente, é sair pedir na rua ou ir dando golpes, às vezes, nos próprios amigos ou familiares.
Pois veja o que concluiu uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, divulgada na manhã desta terça-feira:
Os industriais mostraram-se mais otimistas em julho. O Índice de Confiança da Indústria (ICI), medido pela Fundação Getulio Vargas (FGV), teve alta de 2,9% no confronto com junho, indo de 118,3 para 121,7, o mais elevado desde o início da série histórica, em abril de 1995. Ante o sétimo mês do ano passado, o crescimento foi de 15,8%.
O resultado mostra que a indústria de transformação inicia o terceiro trimestre do ano aquecida e com boas perspectivas para os próximos meses, salientou a entidade em nota disponível em sua página eletrônica. Quanto às expectativas para o emprego, 32% dos empresários projetam contratar novos funcionários nos próximos três meses.
Será? Não é a primeira vez que a gente ouve falar de respostas otimistas que depois não se realizam. Pode ser que isso aconteça ou não. Mas tão importante quanto tratar de matérias urgentes como a crise aérea e essa pouca vergonha que transforma a atividade política em algo fora de propósito, todo governo que quer realmente encarar a realidade de frente tem de priorizar programas que gerem emprego.
Isso, como já disse, é mais importante do que manter o sistema assistencialista cuja maior marca é o bolsa-família, uma forma de caridade oficial que acaba acostumando mal o cidadão, como diz o baião de Luiz Gonzaga.
Por isso, daqui deste espaço, faço sinceros votos de que todos os empresários, industriais ou não, tenham condições de ampliar seus plantéis.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

ESSE FRIO É UMA FRIA

O PAN acabou, mas deixou em seu rastro, além de um rosário de dúvidas e incertezas, um frio de rachar. E é desse frio que há muito não sentia que gostaria de falar, pra início de conversa.
Porque fico pensando: se eu que posso comprar um casaco e um bom cobertor sofri até os ossos, imagino o sofrimento da população mais pobre, principalmente aquele que não tem nem onde dormir e vive perambulando pelas ruas da cidade.
E sabe por que eu pensei nesses nossos irmãos menos afortunados? Por que já não vejo iniciativas de repercussão como as campanhas do agasalho que são tão oportunas nessas horas.
Hoje, esse tipo de movimento parece que saiu da moda. Também pudera: a primeira dama do Brasil, dona Marisa Letícia, uma ex-operária da Dulcora, não está nem aí para a sorte dos pobres.
Ao contrário de outras esposas de presidentes, ela parece mais interessada em aparecer ao lado do marido, sempre exibindo uma roupa de grife e um tratamento de beleza típico de uma emergente. Mas fazer alguma coisa de útil, nem pensar.
Isso é muito paradoxal, com perdão da má palavra. Onde os pobres mais esperavam, eles têm que entrar na roda viva do “Bolsa Família” e mais nada. Aliás, por falar, também não é oportuno fazer uma boa avaliação desse programa que, segundo se diz, atinge a 11 milhões de brasileiros? Não seria melhor pensar num bolsa-emprego, de forma a abrir uma possibilidade de vida produtiva para os necessitados?
No momento, eu só queria mesmo que não aparecesse ninguém morto por causa do frio. Isso já aconteceu muitas vezes. Mas queria também discutir com você as ações dos governos em relação às camadas mais pobres da população, muitos moradores de favelas, que estão abandonados à própria sorte e ainda são tratados como casos de polícia.
Veja o que disse o jornal francês “ Lê Figarro”: “a economia brasileira cresceu 3,7% ano passado, mas o setor de luxo registrou expansão de 32%. "As fortunas brasileiras souberam tirar proveito da política econômica do governo Lula. Para conter a inflação, ele tem mantido as taxas de juros em níveis astronômicos, fazendo a alegria do setor financeiro". O jornal lembra que a Petrobras é seguida, no ranking das maiores empresas do país, por três bancos: Bradesco, Itaú e Banco do Brasil.

domingo, 29 de julho de 2007

CAÇA AOS CUBANOS

A festa de encerramento do PAN, que consagrou a capacidade esportiva do Rio de Janeiro e mostrou que há um imenso potencial olímpico entre os brasileiros, foi empanada pela ausência dos atletas cubanos.
Numa verdadeira operação de “inteligência”, o governo de Cuba determinou o retorno imediato dos seus atletas, com o que abortou um plano operado em conjunto por alemães e norte-americanos para provocar deserções de alguns campeões que, naquele país que continua sendo a maior potência olímpica da América Latina, são amadores e, portanto, recebem preparação em escolas públicas gratuitas, mas não se tornarem milionários.
Acontece que em algumas modalidades o simples abandono do seu país pode lhes render milhares de dólares. Os Estados Unidos, que nunca aceitaram o sucesso esportivo de Cuba sob o governo socialista e apesar do perverso bloqueio econômico que promovem com o objetivo de asfixiar o país de Fidel Castro, mantêm uma equipe da CIA e outros organismos de espionagem atuando diretamente onde os cubanos se apresentam.
É uma verdadeira operação de CAÇA AOS CUBANOS. No PAN do Rio, a ofensiva para aliciar os atletas amadores de Cuba foi capitaneada pela Arena Box Promotions, , uma empresa alemã responsável pela profissionalização de boxeadores internacionais.
Os lutadores de boxe são os mais cobiçados, porque esse esporte no mundo é tradicionalmente controlado por verdadeiras máfias e rola muito dinheiro. Um campeão mundial pode ganhar até mais do que os milionários pilotos da Fórmula 1.
Dos quatro atletas aliciados durante o nosso PAN, dois deles - Guillermo Ringondeaux o campeão mundial nos 69 quilos, Erislandy Lara - firmaram contrato por cinco anos com essa empresa, ligada ao que há de mais sedutor no misterioso mundo do boxe.
Fidel Castro, que determinou o retorno repentino da delegação escreveu um artigo no sábado, denunciando esse assédio:
- Não só compraram os atletas que teriam ouro assegurado, como também golpearam a excelente moral dos outros atletas que seguem defendendo com entusiasmo suas medalhas de ouro - escreveu Fidel. No seu habitual texto para a imprensa com o nome "Reflexiones del comandante", lamentou:
- Cuba, cujos resultados e esforços no esporte amador não podem ser negados, sofre muito mais que outros países as mordidas das piranhas.
É por aí, infelizmente.

sábado, 28 de julho de 2007

O RIO QUE O PAN AMOU

Com o encerramento neste domingo dos jogos pan-americanos, O Rio de Janeiro dá uma demonstração para o mundo de seu imenso potencial e, aqui para nós, o prefeito César Maia sai fortalecido, com a alma lavada.
Como eu comentei ontem, há uma imagem distorcida sobre nossa cidade, cujos problemas de segurança não são nem um pouco diferentes de outras metrópoles do mundo.
Digo isso sem querer forçar a barra. Estive em cidades dos Estados Unidos e na Europa e nunca me senti mais seguro do que aqui. Para ser justo, o único lugar onde respirei um clima de segurança efetiva foi em Havana, Cuba, onde não encontrei nenhuma criança abandonada, nem mendigos, nem pessoas em atitudes ameaçadoras.
Já em Miami, nos Estados Unidos, dá até medo andar no centro da cidade – o Down Town – depois de sete da noite. Numa das viagens que fiz aos Estados Unidos, havia um clima de consternação porque tinham assassinado dois turistas alemães.
Em Madri, na Espanha, levaram minha carteira com os cartões de crédito na véspera da volta ao Brasil. Era um domingo. Só percebi quando cheguei ao hotel, depois de pegar metrô e trem para ir visitar a cidade histórica de Aranjuez. Avisei aos dois cartões, mas já era tarde. No mesmo domingo, eles foram usados para comprar jóias em valores superiores a 13 mil dólares numa única joalheira. Tudo no esquema, com certeza. Claro que o seguro dos cartões assumiu essa dívida.
Conto isso para que a gente comece a refletir sobre essas campanhas que a própria mídia carioca alimenta. São Paulo, por ter um a população muito maior, é bem mais violento. No entanto, a imprensa de lá procura minimizar os acontecimentos negativos.
O Pan quase não se realiza no Rio de Janeiro exatamente por conta dos temores generalizados sobre segurança. Houve nesse ponto uma união entre os governos Federal e Estadual e, felizmente, não se soube de nenhum caso grave, que viesse a comprometer o brilho da grande festa esportiva.
Está provado que, em havendo vontade política, nossa cidade poderá ser de novo um dos maiores pólos internacionais de turismo, com o que isso representa em empregos e crescimento econômico. Só espero que, entre outros benefícios, o PAN tenha nos proporcionado esse.
O Rio de Janeiro tem um povo acolhedor e é a capital com maiores atrativos naturais do mundo. Agora, é mãos à obra: mais turismo e mais emprego.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

AGRESSÕES GRATUITAS

Logo no início dos jogos pan-americanos, um gringo dos Estados Unidos foi mandado embora porque pôs na Vila Olímpica um cartaz com a frase: “Bem-vindo ao Congo”, insinuando, agressivamente, que “isso aqui é uma África”.
Apesar da grosseria gratuita, pouco se comentou a respeito. Afinal, estava no começo da competição e a única coisa que aconteceu foi a monumental vaia à delegação daquele país metido a besta no mesmo dia em que o presidente Lula levou a sua.
Agora, enquanto dão amplos espaços para o ato idiota de dois policiais militares que tentaram extorquir policiais norte-americanos num boite – eles já estão presos e vão pagar caro por isso – pouco se fala do “manual de sobrevivência” que os chefes da delegação norte-americana distribuíram a seus atletas, com tantos avisos e conselhos que parece que, a seus olhos, “isso aqui é um Iraque”.
O manual distribuído aos integrantes da equipe, pelo Comitê Olímpico dos EUA, falava de uma situação tão ameaçadora que, certamente, os atletas esperavam encontrar guerras nas favelas, seqüestros-relâmpagos nos caixas eletrônicos, doenças contagiosas em cubos de gelo ou na água doce e até "malandros" (chamados de "Good Samaritan") tentando se aproveitar da ingenuidade deles.
No capítulo de segurança, um texto informa que nossas comunidades pobres, “conhecidas como favelas", têm uma criminalidade sem controle, onde a polícia não está presente. Em outro parágrafo, o livro alerta os atletas sobre os seqüestros-relâmpagos ("quicknapping"), principalmente em caixas eletrônicos, e avisa que a violência na cidade não tem hora e nem local para acontecer, como se lá fosse um oásis de tranquilidade.
As informações do livro explicam a atitude agressiva do gerente Kevin Neuendorf que, na chegada da delegação americana escreveu com caneta vermelha, em letras garrafais, a preconceituosa frase: "Welcome to the Congo!". O funcionário do comitê americano, que voltou para o país antes mesmo do início do Pan, também tinha na mesa um enorme spray higienizador de ambientes, que serve para afastar mosquitos.
Tanto cuidado, talvez, tenha acontecido após ele ler a parte do manual distribuído pelo comitê que trata de dicas de saúde. O texto diz que os atletas devem usar repelentes e andar de calça, camisas longas e bonés na rua. Só faltaram dizer que o Rio é capital da Argentina. São esses gringos que ainda mandam no mundo.

A LIÇÃO DE UMA MÃE CORAGEM

Pode haver lucidez onde a dor da perda do filho faz sangrar o coração de uma mãe? Pode, acredite. A carta de Adi Maria Vasconcellos Soares, que perdeu o jovem Luís Fernando Soares Zacchini no acidente do Airbus da TAM me tocou profundamente.
Gostaria que você a lesse por inteiro. Mas como é maior do que este espaço (maior sob todos os aspectos, aliás) vou pinçar alguns trechos, porque eles fazem parte de uma aula magna, que deveria ser lida em todos os meios de comunicação.
“Perdi o meu único filho. Ninguém, a não ser outra mãe que tenha passado por semelhante tragédia, pode ter experimentado dor maior”.
“Há muito eu sabia que desastres aéreos iriam acontecer. Sabia que os vôos neste país não oferecem segurança no céu e na terra. Que no Brasil a voracidade de vender bilhetes aéreos superou o respeito à vida humana. A culpa é lançada sobre um número insuficiente de mal remunerados operadores aéreos ou sobre as condições das turbinas dos aviões. Um Governo alheio a vaias é responsável pelo desmonte de uma das mais respeitáveis e confiáveis empresas aéreas do mundo, a VARIG, em benefício da TAM, desde então, a principal provedora de bilhetes pagos pelo Governo.
“Quando os usuário aguardam uma explicação, à falta de respeito ao cidadão juntam-se o escárnio e a cruel vulgaridade de uma ministra recomendando aos viajantes prejudicados que relaxem e gozem. Assuntos de alcova não condizentes com a reta postura moral e respeito exigidos no exercício de cargos públicos”. “Aqueles que deveriam comandar a responsabilidade pelo tráfego aéreo no Brasil nada fazem exceto conchavos. Aceitam as vantagens de um cargo sem sequer diferenciarem caixa preta de sucata. Tanto que oneraram e humilharam o país ao levar o material errado para ser examinado em Washington. Essas são as mesmas autoridades agraciadas com louvor e condecorações do Governo em nome do povo brasileiro, enquanto toda a nação, no auge de sofrimento, chorava a perda de seus filhos”.
Não pensei, contudo, que teria de passar por mais um insulto: ouvir a falsidade de um presidente, sob a forma de ensaiadas e demagógicas palavras de conforto. Um texto certamente encomendado a um hábil redator, dirigido mais à opinião pública do que a nossos corações, ao nosso luto, às nossas vítimas. Palavras que soaram tão falsas quanto a forçada e patética tentativa que demonstrou ao simular uma lágrima”.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

CARTA DE UMA MÃE CORAGEM (ÍNTEGRA)

Aos governantes e à família brasileira,

Perdi o meu único filho.
Ninguém, a não ser outra mãe que tenha passado por semelhante tragédia, pode ter experimentado dor maior.
Mesmo sem ter sido dada qualquer publicidade à missa que ontem oferecemos à alma de meu filho, Luís Fernando Soares Zacchini, mais de cem pessoas compareceram. Em todos os olhos havia lágrimas. Lágrimas sinceras de dor, de saudade, de empatia. Meus olhos refletiam todos os prantos derramados por ele, por mim, por seu filhinho, por sua esposa, por todos parentes e amigos. Por todos os sacrificados na catástrofe do Aeroporto de Congonhas.
Há muito eu sabia que desastres aéreos iriam acontecer. Sabia que os vôos neste país não oferecem segurança no céu e na terra. Que no Brasil a voracidade de vender bilhetes aéreos superou o respeito à vida humana. A culpa é lançada sobre um número insuficiente de mal remunerados operadores aéreos ou sobre as condições das turbinas dos aviões. Um Governo alheio a vaias é responsável pelo desmonte de uma das mais respeitáveis e confiáveis empresas aéreas do mundo, a VARIG, em benefício da TAM, desde então, a principal provedora de bilhetes pagos pelo Governo. Que a opinião pública é desviada para supostos erros de bodes expiatórios, permitindo aos ambíguos incompetentes que nos governam continuarem sua ação impune. Que nossos aeroportos não têm condições de atender à crescente demanda de vôos cujo preço é o mais caro do mundo. Quando os usuário aguardam uma explicação, à falta de respeito ao cidadão juntam-se o escárnio e a cruel vulgaridade de uma ministra recomendando aos viajantes prejudicados que relaxem e gozem. Assuntos de alcova não condizentes com a reta postura moral e respeito exigidos no exercício de cargos públicos. Assessores do presidente deste país eximem-se da responsabilidade e do compromisso com a segurança de nosso povo exibindo gestos pornográficos. Gestos mais apropriados a bordéis do que a gabinetes presidenciais. Ao invés de se arrependerem de uma conduta chula, incompatível com a dignidade de um povo doce e amável como o brasileiro, ainda alardeiam indignação, único sentimento ao alcance dos indignos. Aqueles que deveriam comandar a responsabilidade pelo tráfego aéreo no Brasil nada fazem exceto conchavos. Aceitam as vantagens de um cargo sem sequer diferenciarem caixa preta de sucata. Tanto que oneraram e humilharam o país ao levar o material errado para ser examinado em Washington. Essas são as mesmas autoridades agraciadas com louvor e condecorações do Governo em nome do povo brasileiro, enquanto toda a nação, no auge de sofrimento, chorava a perda de seus filhos.
Tudo isto eu sabia. A mim, bastava-me minha dor, bastava meu pranto, bastava o sofrimento dos que me amam, dos que amaram meu filho. Nenhum choro ou lamento iria aumentar ou minorar tanta tristeza. Dores iguais ou maiores que a minha, de outras mães, dos pais, filhos e amigos dos mortos necessitam de consolo. A solidariedade e amor ao próximo obrigam-nos a esquecer a própria dor.
Não pensei, contudo, que teria de passar por mais um insulto: ouvir a falsidade de um presidente, sob a forma de ensaiadas e demagógicas palavras de conforto. Um texto certamente encomendado a um hábil redator, dirigido mais à opinião pública do que a nossos corações, ao nosso luto, às nossas vítimas. Palavras que soaram tão falsas quanto a forçada e patética tentativa que demonstrou ao simular uma lágrima. Não, francamente eu não merecia ter de me submeter a mais essa provação nem necessitava presenciar a estúpida cena: ver o chefe da nação sofismar um sofrimento que não compartilhava conosco.
Senhores governantes: há dias vejo o mundo através de lágrimas amargas mas verdadeiras. Confundem-se com as lágrimas sinceras e puras de todos os corações amigos. Há dias, da forma mais dolorosa possível, aprendi o que é o verdadeiro amor. O amor humano, o Amor Divino. O amor é inefável, o amor é um sentimento despojado de interesse, não recorre a histriônicas atitudes políticas.
Não jorra das bocas, flui do coração!
E que Deus nos abençoe!
Adi Maria Vasconcellos Soares
Porto Alegre, 21 de julho de 2007.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

OLHAI OS IDOSOS E APOSENTADOS

O país talvez não tenha acordado ainda para uma realidade do maior alcance social: sua população vive cada vez mais – hoje já são quase 13 milhões os brasileiros com mais de 60 anos. E, no entanto, não existem políticas públicas para responder a esse fato, que é altamente positivo, mas traz impõe uma reformulação das ações governamentais.
Não dá mais para entender que tratar da chamada terceira idade é fazer bailes ou simplesmente discursos de homenagem aos velhinhos.
Falo isso a propósito do crescimento do Movimento dos Aposentados, Pensionistas e Idosos do PDT, que nesta quarta-feira empossou Maria José Latgé como sua presidente. E ela já disse a que veio: vai colocar toda a estrutura de que dispõe para abraçar a causa dos aposentados da Varig e de todos quantos foram atingidos por medidas e crises neste país.
Porque os últimos anos têm sido particularmente amargos para os aposentados e pensionistas, condenados a um futuro em que vão acabar reduzidos a um salário mínimo, embora em 60% das famílias brasileiras a renda dos mais velhos pesa quase que como primeira fonte.
A eleição de Maria José Latgé para a presidência do Movimento dos Aposentados do PDT é um dos acontecimentos mais importantes na vida desse partido fundado por Leonel Brizola, provavelmente o único a ter em sua estrutura um segmento organizado de aposentados, pensionistas e idosos.
O exemplo dos brizolistas poderia se aplicar a todos os demais partidos, na medida em que seriam estes, num regime verdadeiramente democrático, as grandes trincheiras dos segmentos sociais.
Os mais velhos são verdadeiros arquivos do pensamento em condições de repassarem seus conhecimentos e de prestarem serviços em muitas áreas. N o entanto, o comum é uma pessoa que perder o emprego a partir dos 40 anos ser desprezada para uma outra oportunidade, como se fosse peso morto.
Há políticas de incentivos ao primeiro emprego – que infelizmente ainda não vingaram – mas, infelizmente, as autoridades ainda não entenderam que as atitudes das empresas em relação aos mais velhos não passam de grandes equívocos, implementados por uma visão míope da mão de obra.
Precisamos agir em todos os níveis, sejamos da terceira idade ou não, para levar os governos e pensarem com mais responsabilidade sobre esse grande contingente humano.

terça-feira, 24 de julho de 2007

SOLIDARIEDADE À SANTA CASA

Quem nesta cidade não precisou e foi bem atendido no Hospital Geral da Santa Casa? Pode ser que um ou outro tenha queixa, mas a grande maioria da população tem encontrado uma acolhida carinhosa de um pessoal que se habituou a prestar serviços com espírito de solidariedade. Os melhores médicos do Brasil em suas especialidades, como o neuro-cirurgião Paulo Niemeyer e o famoso cirurgião plástico Ivo Pitanguy estão entre os que dedicaram ou dedicam parte de seus conhecimento ao atendimento de pacientes carentes.
Essa grande instituição centenária passa por um sufoco no Rio de Janeiro, como já aconteceu em outras cidades. Em algumas delas, aliás, elas simplesmente fecharam.
O Ministério da Saúde está cumprindo seu dever. Diante de uma situação de crise, realiza uma auditoria, já que recursos públicos do SUS são enviadas para o hospital da Santa Casa.
Contudo, se eu fosse solicitado, assinaria o manifesto dos seus médicos, divulgado nesta terça-feira.
O documento, assinado por 42 dos 49 chefes de serviço, inclui nomes de profissionais renomados, como Pitanguy. Na carta, eles afirmam que, diferentemente de outras instituições, a Santa Casa “não se tornou uma empresa lucrativa em detrimento da caridade”. Ao citar a auditoria que está sendo realizada pelo Ministério da Saúde, os profissionais dizem que podem comprovar apenas a dedicação com que atendem “mensalmente cerca de quatro mil pacientes, jamais irregularidades ou desvios de seus médicos”.
Segundo cardiologista responsável pela 6aEnfermaria, Cantídeo Drumond Neto, as equipes de saúde estão confiantes na recuperação da instituição. Um dos líderes da iniciativa, ele disse que a Santa Casa conta com o apoio de mais de 90% dos médicos.
— Não temos envolvimento com a Santa Casa como um todo, mas com o Hospital Geral. É um caso à parte, porque os médicos são muito competentes e há um programa de residentes classe A — disse Cantídeo. — Quanto à falta de medicamentos, todos os hospitais passam por problemas, não é exclusividade do Hospital Geral.
A entidade filantrópica — que administra cinco hospitais, 14 cemitérios, um asilo e dois orfanatos — passa por grave crise, acumulando dívidas de mais de R$ 25 milhões.
Quero que os profissionais abnegados que prestam serviços ao povo pobre na Santa Casa saibam que, tão logo termine o recesso, na semana que vem, vou mobilizar a Câmara Municipal do Rio de Janeiro para ajudar a instituição.
É o mínimo que um brasileiro decente pode fazer nessa hora. Ainda mais no exercício de um mandato parlamentar.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

PIOR QUEM NÃO ESTAVA NO AVIÃO

Enquanto os diretores da Agência Nacional de Aviação Civil, que têm mandatos, põem as mangas de fora e, ao gosto das companhias aéreas monopolistas, se colocam contra a decisão do presidente Lula de dar um chega pra lá no excesso de operações de Congonhas, o Aeroporto do Medo, uma nova informação mostra que, como sempre, a corda arrebenta sempre do lado mais fraco.
O problema maior é das famílias das vítimas que estavam em terra e foram atingidas pelo avião da TAM. Para receber indenização a que têm direito, vão ter que ralar e olhe lá.
É isso mesmo. Parentes de frentista do posto de gasolina ou de quem estava no prédio invadido pelo Airbus terão que reunir evidências para comprovar que a vítima estava perto ou no local do acidente. Para obter a declaração de morte quando o corpo não é encontrado, é necessário um processo judicial.
Nesses casos para obter a declaração judicial de morte leva pelo menos seis meses. E essa declaração é apenas o primeiro passo para abrir o processo contra a companhia.
É um procedimento delicado e o trâmite é esgotar todas as evidências de que a pessoa esteja viva. Enquanto não forem identificados todos os corpos, os familiares - tanto de passageiros quanto de desaparecidos - terão problemas práticos.
Sem a identificação dos corpos e o atestado de óbito, os familiares não podem movimentar contas, vender ou dispor de bens, iniciar o inventário, receber seguros ou indenizações.
As famílias, mesmo antes da identificação dos corpos ou de obter a declaração judicial de morte, podem entrar na Justiça com pedido de liminares para movimentar contas correntes, dispor de bens, obter seguros e indenizações, ainda que sejam fixados valores provisórios. Mas a decisão vai depender do entendimento do juiz.
O Código Aeronáutico de 1987 limitou os valores das indenizações e, para você ter uma idéia, ainda há muitos parentes de vítimas do Fokker, que caiu em 1996 também em Congonhas, à espera de um reparo da empresa.
Que está programando anúncios de condolências na grande imprensa, mas já desperta a desconfiança dos familiares dos passageiros. Quanto mais dos parentes dos que, como pode acontecer com muitos leitores, nem pensavam em viajar de avião.

domingo, 22 de julho de 2007

AVIÕES NA MARCA DO PÊNALTI

É sempre assim: depois da tragédia aparecem os “especialistas” para apontar suas causas. Se elas pareciam tão óbvias, por que nada se fez preventivamente e, o que é pior, nada se cobrou? Foi assim que abri esta coluna logo após a tragédia de Congonhas.
Não deu outra. Hoje, no sétimo dia de um massacre na nossa cara, continua o jogo de empurra e, o que é mais alarmante, não há sinais de lucidez no trato com uma crise que prossegue, transformando a viagem de avião numa aventura semelhante a uma montanha russa.
O pior nisso tudo é a politização e a excessiva preocupação empresarial, como observou, aos prantos, a mãe de uma das vítimas: “eles só querem saber de política e de dinheiro”.
Nessa macabra olimpíada de desastres mortais, uns querem jogar tudo em cima da pista de Congonhas, liberada à pressas, por pressão das empresas, que parecem mandarem e desmandarem na ANAC, o órgão do governo encarregado de “expedir normas e estabelecer padrões mínimos de segurança de vôo, de desempenho e eficiência, a serem cumpridos pelas prestadoras de serviços aéreos e de infra-estruturas aeronáutica e aeroportuária, inclusive quanto a equipamentos, materiais, produtos e processos que utilizarem e serviços que prestarem”, conforme o inciso XXXI do artigo 4º do seu Regulamento.
Depois que se descobriu que o avião sinistrado estava com problemas no reverso direito – que ajuda a reduzir a velocidade e a frear – a TAM está fazendo das tripas coração para dizer que o “manual do fabricante” permitia tal liberalidade por dez dias.
De fato, depois do que fizeram com a Varig, deixaram todo o sistema na marca do pênalti. Na sexta-feira, outro avião da TAM teve que entrar em manutenção e deixou a pé quase duas dezenas de passageiros em Belém. Isto porque ela não tem um único aparelho de reserva.
Sem querer livrar a cara do governo, a quem incumbe fiscalizar a sério, punir se necessário, estou propenso a acreditar que esse modelo de comadres, com apenas duas companhias, é o grande vilão. Veja: no avião que caiu, um piloto da companhia viajava de carona, clandestinamente. Estavam a bordo 187 pessoas, quando o mesmo manual limitava a 185. Havia, portanto, excesso de peso. Como se explicar tanto desprezo pela segurança dos passageiros e dos próprios tripulantes?
E eu bem que ia falar de outro assunto.

A FALTA QUE A VARIG FAZ

Decididamente, essa semana não foi a que pedimos a Deus. Aconteceu de tudo, quase tudo de ruim. Nós não merecemos. E olha que foi uma semana olímpica, com muitos brasileiros ligados nos jogos pan-americanos, que se realizam no Rio com sucesso maior do que o esperado.
É como se a gente não pudesse ser feliz. O acidente com o Airbus da TAM em Congonhas foi uma metralhada que atingiu o país de norte a sul e ainda está causando perdas e danos em toda a população, mesmo em quem nunca chegou nem perto de um aeroporto.
Porque foi um abuso sem tamanho. E não há quem possa ser apontado como o grande vilão. Há, sim, infelizmente, uma porção de pilotos trabalhando com os nervos à flor da pele. Agora, para pousar, eles pensam duas vezes.
Um fokker da mesma TAM fez uma operação perigosa em Congonhas, ao arremeter (subir de novo) na hora que ia encostar os pneus no chão. O mesmo aconteceu com um Boeing da Gol, em São Luiz do Maranhão.
A revelação oficial de que o aparelho sinistrado andava com os freios em pandarecos e já tinha dado outro susto não livra o governo federal da responsabilidade na administração do Aeroporto de Congonhas. E outros mais. E nem do caos aéreo que se instalou desde o temerário complô que levou a Varig a um estado de falência virtual, deixando a ver navios a mais experiente e qualificada corporação do Brasil.
É isso: na raiz de toda essa balbúrdia está a insensatez patrocinada por alguns malucos com assentos em Brasília, que deixaram derrapar a maior companhia aérea da América Latina, com seus 80 anos de sabedoria acumulada e um elenco profissional praticamente insubstituível.
Todo mundo sabe hoje que o deliberado abandono da Varig viria favorecer as duas empresas emergentes, que não acumularam as perdas decorrentes de políticas tarifárias irreais e de outras galhofas incrementadas no passado por governos que não entendem patavina de aviação.
Agora, só resta ao governo do presidente Lula fazer uma autocrítica séria e recomeçar tudo do zero. Isso significa dar ao transporte aéreo a prioridade estratégica indispensável, incluindo a reavaliação da postura em relação a Varig.
Com certeza, muito desse caos não teria acontecido se o governo tivesse entendido a tempo que a Varig não era apenas uma frota aérea em dificuldades.
coluna@pedroporfirio.com

sábado, 21 de julho de 2007

SÓ COM O SINAL DA CRUZ

Desculpe, mas a confissão do vice-presidente técnico da TAM, Ruy Amaro, só serviu para embaralhar mais nossas cabeças. Ele admitiu algo como se o seu Airbus tivesse voando sabidamente com as pastilhas do freio desgastadas.
Meu Deus! Você pode não usar avião, tudo bem. Mas não é por isso que vai concordar que exponham vidas humanas com o uso de “gatilhos” ou ponham aeronaves em atividade com problemas técnicos, ainda mais para pousar num aeroporto inseguro e com a pista empoçada.
No momento em que escrevo esta coluna, há uma expectativa sobre o pronunciamento do presidente Lula em cadeia nacional de rádio e tv. Os brasileiros esperavam mais do que “sinceros pêsames para as famílias enlutadas”.
E havia indicação de que ele tomaria atitudes drásticas, cortando algumas cabeças duras e pondo as coisas no lugar. Quando você estiver me lendo, já estará sabendo do que o presidente da República deste país continental terá providenciado para restabelecer o mínimo de segurança no transporte aéreo.
Mas, enquanto o presidente não der um tranco nessa irresponsabilidade generalizada, os passageiros estarão fazendo o sinal da cruz antes de pegar qualquer avião. Se estiverem em Congonhas, vão fazer outras tantas orações e contar com a sorte, porque para muitos, não há como adiar certas viagens.
Foi o que aconteceu comigo na quinta-feira, dia 19. Tanto na ida a Brasília, como na volta, os aparelhos estavam lotados. E, embora muitos passageiros fossem habituados a esse vai-e-vem da capital federal, alguns não escondiam semblantes de preocupação.
Um observou que há um mau hábito de levar bagagens de mão com peso superior ao razoável. Lembrei que no Aeroporto de Caracas, no final do ano passado, fui obrigado a embarcar uma maleta pequena, muito menor das que eram transportadas ali.
Fiquei sabendo também que as companhias que se aproveitaram da miniaturização da Varig não têm aeronaves suficientes para atender a demanda. E nesses tempos de apagão, podem estar jogando avião na pista de qualquer jeito. Quando a TAM mandou seis para revisão, tumultuou a vida dos aeroportos. Se precisar tirar um de operação hoje, vai deixar muito passageiro a pé. É mole isso?
Enfim, está declarado o caos. Nessas horas, só um presidente da República determinado pode reverter essa situação deprimente.
coluna@pedroporfirio.com

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Porque hoje é dia de Santos Dumont

Inventor do avião, Alberto Santos Dumont nasceu em Minas Gerais, num dia 20 de julho, há 104 anos. Em 1932, aos 59 anos, suicidou-se em Guarujá, depois de declarar sua amargura por ver seu invento usado como arma mortífera na primeira guerra mundial (1914-1918).
Uma vez, ele disse: “No começo deste século, nós, os fundadores da Aeronáutica, havíamos sonhado com um futuro pacífico e grandioso para ela. Mas a guerra veio, apoderou-se de nossos trabalhos e, com todos os seus horrores, aterrorizou a humanidade. Criei um aparelho para unir a humanidade, não para destruí-la”.
Quando morreu, Santos Dumont não podia imaginar a importância que o avião representaria como meio de transporte para toda a humanidade.
Não podia esperar também que os homens não tivessem capacidade de dominar aviões cada vez maiores e mais velozes, capazes de provocar tragédias como a de terça-feira, no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
Hoje, na data do seu aniversário de nascimento, os brasileiros não podem fazer festa nenhuma. Ainda estão perplexos com o que aconteceu com um avião moderno, dotado de todos os controles eletrônicos imagináveis, num aeroporto da cidade mais importante do Brasil.
Não faz muito, em 29 de setembro do ano passado, um avião executivo derrubou um Boeing da Gol. Seguiu-se então uma crise que paralisou os aeroportos do país, em meio a atitudes chocantes de algumas autoridades, como a ministra Marta Suplicy, que aconselhou cada passageiro revoltado a “relaxar e gozar”.
Nesses dias tumultuados, o presidente da Infraero, a estatal responsável pelos nossos aeroportos, declarou em entrevista à Band-newes: "Com relação à segurança de vôo, eu não me preocupo. Até porque os aviões estão retidos no solo e todo mundo sabe que a melhor proteção para um avião não cair é ele não decolar".
Numa hora dessas, espera-se do presidente Lula mais do que o emprego da Polícia Federal na investigação sobre a obra da pista onde aconteceu o acidente. Se estiver no pleno exercício de suas responsabilidades, ele promoverá uma devassa e fará rolar cabeças nesses órgãos, em todos os escalões, porque, como todo mundo sabe, ali o predomínio de práticas imorais passou dos limites, se é que essas práticas são admissíveis em algum limite.
Fora de uma atitude drástica, o país permanecerá exposto a autoridades despreparadas para suas funções.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

SÓ FALTA CULPAR AS RÁDIOS “PIRATAS”

É sempre assim: depois da tragédia aparecem os “especialistas” para apontar suas causas. Se elas pareciam tão óbvias, por que nada se fez preventivamente e, o que é pior, nada se cobrou?
A um pai, a alguém próximo das vítimas do acidente com o avião da TAM não há explicação que lhe poupe da dor e do sofrimento.
O que aconteceu com o vôo 3054 poderia ter ocorrido a outros, conforme opinião unânime, especialmente devido às condições de pouso no Aeroporto de Congonhas, o mais movimentado do país. Essa teoria ganha substância a partir do “ensaio” de véspera, quando um avião da Pantanal também derrapou e saiu da pista, parando a tempo no gramado.
Essa pista em que o jato da TAM não conseguiu frear havia sido “reformada” e devolvida ao tráfego no dia 30 de junho. O governo gastou mais de R$ 20 milhões nessa obra, que só ocorreu depois que o Ministério Público obteve sua interdição judicial, considerando laudos técnicos disponíveis.
Há um outro lamento unânime: o governo federal tem investido maciçamente nos terminais de passageiros, transformando-os em verdadeiros shoppings. A última coisa que entra na planilha é a segurança das pistas.
Não é de hoje que o Ministério Público considera Congonhas impraticável para o volume de pousos e decolagens – um a cada minuto e meio – e para os tipos de aeronaves, cada vez mais pesadas e mais velozes.
A Infraero, estatal que administra os aeroportos, está sendo acusada de superfaturamentos em obras e outros desvios, muitos comuns na gestão da coisa pública.
A Anac – Agência Nacional de Aviação Civil – completou um ano como substituta do DAC – em meio a críticas e suspeições sobre seus posicionamentos.
Há quase um ano, o país sofre os prejuízos do “apagão aéreo”, que transforma uma viagem em uma aventura.
Há dez meses, um avião da Gol caiu num estranho choque com outro, pilotado por dois norte-americanos, que desligaram o aparelho que poderia impedir o acidente e saíram ilesos.
Em suma: não é muito mistério a ser decifrado? Quando você estiver lendo esta coluna, estarei viajando a bordo de um aparelho igual ao que causou o maior acidente do Brasil. Como você acha que estarei fazendo esse vôo inadiável?
Bem, só falta agora culparem as rádios “piratas” pela tragédia.
Voltarei ao assunto, com certeza.

terça-feira, 17 de julho de 2007

PRESIDENTE DO STJ AUTORIZA ABORTO

Em decisão anunciada nesta quinta-feira, O ministro Raphael de Barros Monteiro Filho, presidente do Superior Tribunal de Justiça, garantiu à gestante Rosane Ribeiro dos Santos, do Rio Grande do Sul, o direito de cometer aborto. Ela está grávida de uma criança portadora da fatal Síndrome de Meckel-Gruber, que corre risco de morrer em horas ou dias após o parto.
A defensoria pública do Rio Grande do Sul apresentou habeas-corpus ao STJ em favor da gestante. Além da letalidade confirmada da doença do feto por conta de uma patologia que não permite a sobrevivência, a saúde da gestante também corre sérios riscos.
A decisão enriquece a lista de casos já decididos pela Justiça, que repõe na mesa a discussão sobre a necessidade de uma revisão séria e profunda a respeito da questão do aborto.
O presidente do STJ foi claro, ao afirmar: ““Deixando de lado toda a discussão religiosa ou filosófica, e também opiniões pessoais, a questão toda gira em torno da inviabilidade de vida do feto fora do útero materno e de proteção à saúde física e psicológica da mãe”.
Nossa ciência já avançou bastante para demonstrar a tempo todo o sofrimento de uma mãe que dá à luz uma criança sem condições mínimas de sobreviver e, durante o período em que estiver “vegetando” será um exemplo vivo do sofrimento mais doloroso.
Ainda bem que o presidente do Superior Tribunal de Justiça teve a mesma coragem do ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo, quando julgou caso semelhante.
Porque, originalmente, o pedido foi indeferido nas duas primeiras instâncias. Os magistrados gaúchos concluíram pela impossibilidade jurídica do pedido. Diante disso, outro pedido, dessa vez no STJ, foi apresentado pela Defensoria. Cita, para dar suporte ao pedido, decisão do ministro Arnaldo Esteves Lima, que, apesar de não ter autorizada a interrupção devido ao fato de a gestação estar no final, se manifesta favoravelmente a interromper a gestação nesses casos. Além disso, no caso em questão, a gravidez se encontra na 26ª semana.
Ao apreciar o pedido, o ministro Barros Monteiro reconheceu ser plausível o pedido e o perigo da demora, o que justifica a concessão da liminar. Ele destaca o fato de haver comprovação da doença do feto e também da ameaça à saúde da mãe. O ministro levou em consideração parecer da procuradora de justiça no qual se afirma que o prognóstico dessa doença é de óbito em horas ou dias após o parto. O que você faria num caso dessa gravidade?

terça-feira, 10 de julho de 2007

OS EMPREGOS DO CORCOVADO

Só quero ver de que cartola vão tirar 250 mil empregos por conta da escolha de Cristo do Corcovado como uma das “7 novas maravilhas do mundo”. Pra mim, só se for por milagre.
Se isso acontecesse, até ficaria calado diante de uma seleção absolutamente fora de propósito. É verdade, desculpe, mas não se pode levar a sério uma avaliação internacional sobre os obras e monumentos históricos através de “votos” pela internet e celulares.
A ONU tem um órgão especializado em definir valores culturais e “patrimônios da humanidade”. São profissionais criteriosos que analisam tudo com o devido critério técnico. Esse órgão é a UNESCO, que desautorizou o tal concurso. De alguma forma, você deve ter ouvido falar dele.
Agora essa eleição foi o que o jornal espanhol EL MUNDO chamou de “Farsa Global”. Você votou no Cristo por “patriotismo”. Duvido que conheça os “concorrentes”. Votou no escuro, como torcedor. Aí não dá.
Acho que aprontaram mais uma para criar um sentimento de vitória em nosso país, onde a auto-estima está lá embaixo, devido à situação da maioria do povo – boa parte do qual vive da ajuda do “Bolsa-Família” – e a sucessão de notícias sobre as poucas e boas dos nossos políticos.
Nessas semanas de campanha, tive a nítida sensação do renascimento da “patriotata” que serve para manipular sentimentos e ufanismos diversionistas, sem conteúdo, numa afronta à própria noção do belo e maravilhoso.
Para mobilizar os brasileiros em torno dessa escolha, em que se poderia votar quantas vezes quisesse, uniram-se políticos, mídia e grandes empresas, todos visivelmente interessados em capitalizar em termos de suas próprias imagens.
O cara que bolou a definição das novas maravilhas mostrou que tinha talento fez uma tremenda festa para anunciar os escolhidos. Agora, você vai ficar acreditando que o nosso Cristo é uma das 7 maravilhas do mundo e durma-se com esse barulho.
Para nós, venderam a idéia do aumento de emprego e do turismo. Será? Estamos mesmos precisando, porque o número de visitantes cai de ano a ano. Mas, não vai ser isso que vai pesar na decisão dos turistas, principalmente estrangeiros. Como o Brasil é o que é, a festa continua até você acordar e descobrir que participou de uma escolha que só teria credibilidade se feita por quem é do ramo e tem todos os elementos de avaliação.

domingo, 8 de julho de 2007

O “PAN” COMO REFERÊNCIA SOCIAL

Como já começou a contagem regressiva para o início dos nossos jogos pan-americanos, vale aqui um breve comentário. E um registro indispensável: independente da quantidade de medalhas que venha a obter, o Brasil já “entra em campo” vitorioso pelo sucesso previsível do evento, com o resgate real do prestígio internacional da cidade do Rio de Janeiro.
Para os nossos jovens e adolescentes, a realização dos jogos olímpicos regionais, com tantas modalidades esportivas, é uma oportunidade histórica. Serve para estimular o interesse por uma atividade que é inerente ao ser humano e que tanto reflete como compensa o nível social e cultural.
É claro que, como tudo que envolve interesses, essa competição tem uma história subterrânea que deverá ser apurada depois, tal a avalanche de denúncias, algumas já tornadas públicas pela revista “Caros Amigos”.
Mas a realização dos jogos que trazem atletas de 42 países ao Rio de Janeiro é uma boa oportunidade para entender a visão política de cada governo em relação aos esportes e a atenção que cada povo a essa ferramenta de “inclusão social”, como se cobra muito nestes dias magros em que vivemos.
A história do Pan até hoje tem sido a história da supremacia dos Estados Unidos, vencedor de todas as competições, com exceção de duas: a primeira, realizada na Argentina, em 1951, em caráter totalmente amador, e a de 1991, de Havana, quando Cuba obteve mais medalhas de ouro do que os norte-americanos.
Desde já, é preciso lembrar que não é a primeira vez que a competição se realiza no Brasil. São Paulo foi sua sede em sua quarta versão, em 1963. Mas então não houve a mobilização que hoje transforma o Rio em capital esportiva do mundo.
Eu estarei atento não apenas para torcer pelos atletas brasileiros. Vou querer entender o sucesso de Cuba, a segunda potência esportiva do Continente, apesar do bloqueio econômico e das dificuldades porque passa seu povo.
Esse desempenho é tão importante que vou entregar a Medalha do Mérito Pan-Americano à delegação cubana, iniciativa da Câmara Municipal, por indicação minha. O ato será nesta quarta-feira, ás 18 horas, na sedce da OAB (Rua Marechal Câmara) com a presença dos grandes atletas cubanos de todos os tempos e, naturalmente dos brasileiros, que são anfitriões. Você também está convidado.(9.7.07)

O ABSURDO CUSTO DA VIOLÊNCIA

Especialistas calculam em 32 bilhões de reais o custo anual da violência no Rio de Janeiro. A ser verdadeiro esse número, estaremos diante de uma despesa exorbitante, que representa três vezes mais do que a Prefeitura gasta com tudo, desde o pessoal, manutenção de hospitais e mais de mil escolas.
Segundo matéria do jornalista Todd Benson, da Agência Reuters (16/04/2007), citada em estudo do coronel José Vicente, ex-secretário Nacional de Segurança, o comércio, principalmente
ligado ao turismo, gastou 1,3 bilhão de dólares para reforçar suas condições de segurança,prejudicando investimentos e contratações.
Muitas empresas deixam de investir ou reduzem sua presença por questões associadas à violência. O inevitável noticiário
internacional sobre a violência no Rio acaba acarretando substancial perda de arrecadação com a limitação da exploração de seu enorme potencial turístico.
O coronel José Vicente enfatiza: “Após dois governos sucessivos com muitas promessas de controlar a violência, exibição de inovações inúteis, criação desnecessária de unidades especializadas, afastamento de grande número de efetivos das atividades policiais, o que se viu foi o enfraquecimento do policiamento do estado e o crescimento da ousadia dos grupos organizados e o aparecimento das milícias, submetendo a população mais pobre a confrontos cada vez mais freqüentes e violentos”.
O desempenho da Polícia Civil tem sido pífio, como se observa em estudo da antropóloga Ana Paula Mendes de Miranda, presidente do Instituto de Segurança Pública (ISP). Segundo esse estudo, sobre uma amostra de 385 casos de homicídios, apenas em 10 houve prisão em flagrante, raramente os policiais civis compareceram ao local do crime.
Levantamento feito pelo Ministério Público sobre inquéritos de homicídios concluiu que o índice de esclarecimentos fora dos casos de prisão em flagrante (em torno de 2%), foi de 1%, no crime que é o de mais fácil apuração.
Por aí se vê que segurança é ficção em nosso Estado. Quem quiser discutir a questão de segurança não pode se limitar a atitudes primárias, que dão mídia e mantêm acuadas as populações das comunidades pobres. Encontrará o caminho das pedras quem for fundo no desafio (8.7.07).

O “PAN” E OS PROBLEMAS DA PM

Numa hora em que a euforia dos jogos pan-americanos gera um clima de “internalização” do Rio de Janeiro por proveitosos 15 dias, as forças negativas parecem dispostas a trabalhar contra, causando prejuízos incalculáveis para a cidade.
De um lado, a inabilidade da cúpula da Segurança Pública e do próprio governador, que prometem novas cenas de guerra urbana para as próximas horas.
De outro, interesses corporativos que perdem a legitimidade quando aproveitam a expectativa para ameaçar tumultuar o ambiente do “Pan” a menos que sejam satisfeitos em suas pretensões, até cabíveis, mas em outro momento.
A inabilidade de que falo passa por tudo, como se estivéssemos entregues a um grupo de amadores e diletantes. A mais grave, como já disse, é essa opção precipitada pela “federalização” da segurança e o ostensivo desprestígio das tropas locais.
Aliás, há quem veja na importação de policiais de outros Estados, pagos a peso de ouro se comparados aos nossos, uma demonstração de desconfiança das autoridades máximas.
É como se nossos policiais militares estivessem irremediavelmente dominados por uma banda podre, que ninguém desconhece, e ameaçassem nos expor a vexames irreversíveis. Ou já fossem aliados incorrigíveis de tudo o que é ruim, de tal forma que já não podem ir sozinhos para as ações em que são escalados.
Estou muito à vontade para falar a respeito, porque nunca calei cada vez que determinado policial cometeu excessos e abusou da farda. Há um pessoal da pesada, sim, dentro dos quartéis. Tanto que só este ano 150 policiais já foram expulsos e é comum ver alguns deles envolvidos em delitos e cumplicidade.
Mas, com toda certeza, a grande maioria é formada por pessoas que incorporam com a melhor das intenções e prestam serviços aos cidadãos, independente do clima nervoso em que são as primeiras vítimas e dos vencimentos miseráveis, que os obrigam a correr atrás de bicos e complementações. Para você ter uma idéia, um PM fluminense ganham três vezes menos do que seu colega de Brasília.
Essa maioria quer agir na forma da Lei e cumprir honestamente suas obrigações. O problema está em cima, nesse clima beligerante e na imagem desgastada da instituição centenária. Eles pagam também pela falta de políticas coerentes de proteção ao cidadão, que não tem nada a ver com essa paranóia espetaculosa de confrontos e execuções(7.7.07).

INJUSTIÇAS QUE MINAM A PM

Ponha-se no lugar de um policial militar do Estado do Rio de Janeiro: enquanto ele está na linha de tiro, em ação ou em casa, por menos de R$ 1.000,00 de salário mensal, seus colegas da Força Nacional de Segurança acabam de ganhar um aumento de 100% nas diárias, conforme o decreto 6145/07, assinado pelo presidente Lula e publicado no Diário Oficial de quarta-feira.
Agora, além dos salários que recebem em suas corporações de origem, quase todos melhores do que os da PM fluminense (um dos mais baixos do país) os visitantes ganharão uma diária de R$ 230,00, casa, comida e roupa lavada.
Não pode haver maior inabilidade no trato com os policiais militares do Rio de Janeiro. Eu já demonstrei com números oficiais que há uma sobrecarga dos policiais lotados na capital – apenas 6 mil dos 35 mil, segundo o coronel José Vicente, ex-secretário nacional de Segurança.
Agora, um grupo de nove coronéis está dirigindo manifesto ao governador Sérgio Cabral, no qual pede uma mudança séria na gestão da corporação, começando pelo fim dos desvios de função.
O manifesto pretende "resgatar a cidadania, a dignidade pessoal e profissional de todos nós, permitindo que possamos cumprir as nossas missões constitucionais, servindo e protegendo cada cidadão desse Estado, mesmo com o sacrifício de nossas vidas. Ressalte-se que as necessidades em questão não tiveram origem neste governo, pois trata-se de conseqüência de décadas de descaso; de falta de comprometimento de governantes e de Irresponsabilidade de inúmeras administrações”.
Assinam o documento os coronéis Hildebrando Esteves (diretor de Finanças), Paulo Ricardo Paul (corregedor), Gilson Pitta Lopes (chefe da P-2 do Estado Maior), Dario Cony dos Santos (comandante da Escola Superior de Polícia Militar), Rodolpho Oscar Lyrio Filho (comandante da Academia Dom João VI), Leonardo Passos Moreira (chefe do Centro de Comunicações e Informática), Francisco Viva (diretor de Apoio Logístico), Ronaldo Menezes (comandante do BPRV) e Renato Fialho Esteves (comandante do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças).
Estamos, pois, diante de um quadro grave de descontentamento na área de segurança e isso tende a se refletir no ânimo de todos, com repercussão sobre a sociedade civil (6.7.07).

ONDE ESTÃO NOSSOS POLICIAIS?

Considero da maior leviandade essa de dizer que os policiais da Força Nacional de Segurança, “ao contrário dos PMs do Rio” estão ganhando as simpatias das comunidades porque as tratam com maior respeito.
Isso é mais uma maneira de desmerecer o policial do nosso Estado e, ao mesmo tempo, tentar justificar os desnecessários altos gastos com os que vêm de fora com uma diária extra de R$ 120,00 e mais casa, comida e roupa lavada.
A grande maioria dos nossos policiais militares – grande maioria, mesmo – vem de comunidades de baixa renda e, na medida do possível, permanece psicologicamente fiel às suas origens.
O clima que se estabeleceu, por conta de toda uma circunstância incidental, é que está gerando acontecimentos abomináveis, muitas vezes com o sacrifício bestial de um cidadão pelo simples fato de portar uma carteira de PM.
Daí a tensão e o nervosismo, agravados pelas ordens de cima. Há hoje, infelizmente – para a insegurança de todos, inclusive de inocentes – um clima de guerra urbana. O soldado em si não escolhe as armas nem as regras do jogo. É jogado na frente do fuzil e ai de quem demonstrar insatisfação com a tarefa, por mais insensata que seja.
No entanto, é preciso que você saiba que não seria necessário gastar essa grana toda com a Força Nacional de Segurança se houvesse o mínimo de competência na gestão do pessoal da Polícia Militar fluminense.
O que eu vou dizer, você não vai acreditar, mas quem relatou por escrito foi um ex-secretário nacional, o coronel José Vicente da Silva Filho: o Rio de Janeiro, como “capital, com 37% da população do estado tem 16% do efetivo da PM. São apenas seis mil para o conjunto de 38 mil policiais militares do estado, evidenciando sérios problemas na distribuição dos efetivos que devem ser reparados. A capital concentra 50,8% do total anual dos registros policiais, 42% dos homicídios do estado e 64% dos furtos e roubos de veículos, bem como 64% dos assaltos a pedestres. Um dos fundamentos básicos de qualquer administração - e principalmente na estrutura policial - é a proporcionalidade de efetivos em relação à população e à incidência criminal, dois fatores que recomendam dotação maior que a média do estado para a cidade do Rio de Janeiro”.
Isso ninguém conta porque ninguém quer passar recibo de incompetente (5.7.07).

FORA DA LEI NÃO HÁ SALVAÇÃO

Que eu saiba, ninguém pediu para a polícia enfrentar os bandidos com pétalas de rosa e pó de arroz. Desafio a quem quer que seja que arranque coisa parecida dos que não aceitam que tratem as comunidades pobres – favelas e conjuntos habitacionais – como se todos tivessem devendo algum coisa.
Definitivamente, é preciso deixar claro que não há nenhuma pessoa de bem defendendo a impunidade de criminosos – sejam os dos morros ou os de colarinho branco, do Planalto Central.
Para levantar a voz contra os transgressores da Lei nos morros, seria aconselhável que nossos respeitáveis dirigentes fossem igualmente rigorosos com os ladrões dos dinheiros públicos, os titulares de um tráfico igualmente nocivo para o país – o tráfico de influências.
O que está acontecendo no Senado Federal, a mais importante casa do Poder Legislativo, deixa todo mundo na maior saia justa. Ali, à luz do dia, estão fazendo todo tipo de manobra para livrar a cara do seu presidente, o senador Renan Calheiros, que se valia de um lobista da empreiteira Mendes Junior para pagar a pensão de uma filha com a ex-amante Mônica Veloso.
Por causa do indefensável de seu delito, já renunciaram dois relatores no Conselho de Ética e já caiu um presidente, substituído por outro que responde a processo por apropriação de dinheiro público.
Nesse caso, estão cultivando pétalas de rosas e muito pó de arroz, pois, como disse o Roberto Jefferson , Renan Calheiros tem muita gente na mão. Se ele rodar, não roda sozinho.
Pior é a situação do senador Joaquim Roriz, quatro vezes governador de Brasília. Pegaram o homem ao telefone falando da divisão de uma propina de 2 milhões: um cheque do Banco do Brasil descontado no Banco de Brasília por seu presidente, homem de confiança de Roriz, que está em cana.
Eu não justificaria um crime, mostrando outro, que isso não tem sentido, não ajuda. Mas o que quero é que a lei seja aplicada por igual em todos os casos, sem discriminação de natureza alguma.
A Lei ainda é a maior arma para dar um basta nos delitos de quem quer que seja. Nossa legislação, aliás, é farta e até permissiva. Mas fora da Lei não há salvação.
O arbítrio que se comete contra uns põe em risco a vida dos demais. A tolerância que se pratica em relação a uns dá asas a outros(4.7.07).

domingo, 24 de junho de 2007

RENAN CALHEIROS EM MAUS LENÇÓIS (I)

Coluna no jornal POVO DO RIO do dia 23.6.07

De alguma forma, você deve estar sabendo do tititi no Senado da República. Naquela outrora respeitável casa do Poder Legislativo, o seu presidente, senador Renan Calheiros, está em maus lençóis.
Tudo por causa dos lençóis de sua atração fatal, a jornalista Mônica Veloso, um avião que já foi sonho de consumo de 9 em cada 10 figurões da Praça dos Três Poderes.
É que, esquecendo os preceitos da prudência e dos costumes modernos, o senhor presidente do Senado não soube brincar com fogo. Naquele clima quente de prazer que o poder oferece, o alagoano deu mole: não usou camisinha e ganhou uma filha para além de suas porteiras.
Até aí morreu Neves. Os brasileiros não são metidos a falsos puritanos com os americanos. Nem a sua esposa se deu por traída. Tanto que está lá, firme e forte, a seu lado, como se nada demais tivesse acontecido.
O problema é quem pagava a conta dessa relação digamos pecaminosa era um sujeito especialista em "convencer" os donos dos poderes a darem preferência à construtora para a qual trabalhava. Cláudio Gontijo não nega que é lobista da Mendes Junior. E também não esconde que era o portador da grana para o sustento da nova brasiliense, em valores tão generosos que hoje há uma fila de belas mulheres à espera de um olhar do fértil alagoano.
Por causa dessa pensão terceirizada, o presidente do Senado pode perder até o emprego. Aliás, não só por causa disso, mas, principalmente por sua arte de vender a boiada a preço de ouro a empresas inexistentes e a um modesto açougue da esquina, na Maceió das mil e uma noites.
Com todo o poder de que dispõe e até com a solidariedade de 9 em cada 10 senadores, Renan pode saber o que dizer em casa, mas não está conseguindo convencer a ninguém de que era seu, dos seus bois, o dinheiro usado para sustentar a filhinha, uma conta que passa dos 300 mil reais.
Por causa disso, a Casa de Leis quase vira uma casa de tolerância. Os pares e os ímpares de Renan tentaram abafar, com a história de que tudo se resumia a um caso de amor com final infeliz.
Isso não deu. Pior: deu zebra. Há dezenas de câmeras e microfones nos calos dos senadores. E aí, pronto. Sujou geral.
Leia o segundo capítulo amanhã.

EM MAUS LENÇÓIS (II)

Coluna no jornal POVO DO RIO do dia 24.6.07
Como contei ontem, o presidente do Senado está em maus lençóis. E isso está tirando audiência das novelas de televisão. Todo mundo quer saber como acabará o senador Renan Calheiros, já que nenhuma de suas desculpas convenceu a ninguém.
Lembrando: ele arranjou uma namorada fora de casa, fez uma filha, mas quem paga a conta é um preposto de uma grande construtora que tem as melhores obras das áreas onde o presidente do Senado tem apadrinhados.
A primeira parte não interessa. É assunto particular. Sua esposa já o perdoou. Além disso, com a divulgação dos valores repassados à namorada, ele passou a ser o grande sonho das mulheres de Brasília, todas querendo ter um filho com seu DNA.
Mas essa ajuda do sr. Cláudio Gontijo, da Mendes Junior, não pegou bem. E pode pegar para seu próprio mandato, isto é, o mandato do senador que um dia foi o líder do presidente Collor, cassado por exagerar na dose da corrupção.
Só que o senador Calheiros, que deu mole para a moça, não está a fim fazer o mesmo com seus pares. Vai usar de todas as suas armas, não importa quais, para dar um chega pra lá nos que desejam vê-lo pelas costas.
Primeiro, lembrou que o Senado está anos-luz longe de ser uma casa de freiras. Ao contrário. Lembrou ele muito bem que o melhor para todos é não mexer no vespeiro das empreiteiras e seus amáveis lobistas.
Todos, ou quase todos, como deixou claro, de alguma forma, têm sido merecedores das gentilezas dessas construtoras e de outras fornecedoras para os governos. Afinal, não é qualquer um que se torna senador, que dispõe de acesso direto, amplo e irrestrito, aos centros de decisão do país.
Foi só ele falar que promiscuidade com empreiteiras não é exclusividade sua para que entrasse em campo a turma do deixa - disso, provocando algumas baixas inesperadas.
O senador Romeu Tuma, policial experiente dos tempos da ditadura, teve uma indisposição e pediu licença médica. Ele é o corregedor da casa a quem coube fazer a primeira investigação para provar a inocência do Presidente.
Depois, foi o folclórico senador Epitácio Cafeteira que passou mal e renunciou, porque assinou um relatório de amigo que foi desautorizado por uma reportagem do Jornal Nacional, mostrando que Renan não poderia ter ganho tanto dinheiro vendendo boi por lebre.

EM MAUS LENÇÓIS (III)

Coluna no jornal POVO DO RIO do dia 25.6.07
Como eu disse nas duas últimas colunas, o presidente do Senado ficou em maus lençóis por ter tido a pensão de uma filha fora de casa paga por um lobista de uma empreiteira.
Ele tentou provar que o rapaz era apenas um menino de recado. Que o dinheiro vinha da sua boiada, vendida a peso de ouro, coisa que ninguém acreditou, até porque onde passa um boi passa uma boiada.
Mas ele já deu a entender que não vai entregar o ouro aos colegas sem mais, nem menos. Se cair, não cai sozinho. E é isso que está causando o maior tititi na Praça dos Três Poderes, em Brasília.
Depois de falar que boas relações com empreiteiras não é exclusividade dele, o que levou muitos colegas a um silencioso pânico, seus amigos passaram a espalhar fofocas sobre os colegas que estão querendo sua cabeça.
A mais comprometedora delas foi sobre o senador Demóstenes Torres, de Goiás. Segundo disseram, ele gosta de ir à reunião da ONU, em Nova York, todos os anos, acompanhado de uma bela assessora, que seria completa. Tudo por conta do contribuinte, isto é, por nossa conta, minha sua e de todos os brasileiros.
O senador não negou. Diz que requisita a moça porque não sabe falar inglês. E ela talvez seja a única que saiba usar bem a língua nos contatos de primeiro grau na cidade norte-americana.
De outro senador, José Agripino, do Rio Grande do Norte, disseram que ele está dando calote no Banco do Nordeste, que é do governo, numa dívida de 50 milhões de reais.
Este senador esclareceu que deve e não nega. Mas não é tanto. Sua pendência seria de 2 milhões, que ele não paga por estar contestando a cobrança na Justiça.
Não há nenhuma queixa do Banco oficial no Serasa ou em qualquer desses serviços que nos põe no cadastro negativo se deixarmos de pagar qualquer ninharia.
De onde chegamos á conclusão de que a coisa naquela Casa de Leis não anda nada legal. Pelo que é igualmente difícil antecipar o que será decidido sobre os maus lençóis do sr. Renan Calheiros.
O que se sabe, porém, é que o estrago já foi feito. Da próxima vez, ele precisa ser mais prudente em seus atos. Poderia fazer uma vasectomia, que aí não há como deixar furos.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

INTROMISSÃO INDEVIDA NA EDUCAÇÃO

Colna no POVO DO RIO DE 7.6.07
Eu bem que avisei: A Câmara Municipal não pode legislar nessa polêmica sobre a introdução do sistema que procura dar um jeito na exclusão a cada ano de milhares de alunos pobres da rede de ensino do município do Rio de Janeiro.
Essa matéria está definida numa Lei Federal - a 9394/06, sobre Diretrizes e Bases da Educação. É, portanto, matéria do legislador federal.
Intrometer-se nisso, só para querer desmerecer uma medida oportuna do Prefeito César Maia e de sua Secretária de Educação, Sônia Mograbi, uma das mais competentes que já conheci, é expor o Poder Legislativo mais da conta.
Logo, os educadores mais preparados, que não estão querendo preservar um sistema que faliu, reagiram com indignação e de forma didática:
— Esse assunto tem que ser discutido por educadores, não pelos vereadores. É como se eles quisessem resolver, por decreto, que remédio um médico deveria receitar para seus pacientes – declarou a professora Berta Valle, coordenadora do curso de pedagogia da Uerj. E foi mais além:
- O que os vereadores querem é ganhar voto, não discutir o que é melhor para a educação — criticou Berta.
Segundo a professora, o sistema de ciclos já está implantado em vários municípios e capitais brasileiros com sucesso:
— A escola seriada, que reprova, está preparando bem os seus alunos? Certamente não. Então, vamos implantar um novo esquema para ver — propõe a professora.
Ganhar votos? O vereador Jairinho, do PSC, é muito jovem e, apesar da experiência do pai, o deputado Cel. Jairo, devia saber que os 200 professores que foram impor uma decisão inconstitucional da Câmara, assinada por ele, já são militantes orgânicos ou influenciados pelos seus representantes na casa, entre os quais Eliomar Coelho, do PSOL, e Rubens Andrade, do PSB.
Claro que essa proposta foi mais um duelo na oposição eventual que um grupo está fazendo ao prefeito. No entanto, foi um tiro no pé. Para aprovar um Decreto Legislativo inconstitucional que interfere no currículo escolar, tiveram apenas 25 dos 50 votos da Casa. Não foi, portanto, sequer uma vitória política.
E como o Prefeito poderá derrubar na Justiça tal intromissão, fica a casa com a sobra por ter “vendido ilusões” e perturbado a atividade mais sensível deste país – a Educação.
coluna@pedroporfirio.com

O DIREITO DE CUIDAR DOS PÉS


COLUNA NO JORNAL POVO DO RIO DE 5.6.07
Num país em que o desemprego e o subemprego são responsáveis por uma grande tragédia social, não há maior absurdo do que criar dificuldade a quem quer trabalhar honestamente.
Eu não estou falando dos camelôs, dos vendedores de sinal de trânsito. Esses se defendem como podem porque, além de não conseguirem empregos de carteira assinada, ainda têm a possibilidade de, numa boa maré, ganhar bem mais do que o salário mínimo.
Refiro-me hoje a um grupo de três mil profissionais que enfrentam o casuísmo de um decreto em que foram incluídos, tanto como Pilatos entrou no credo.
Esses profissionais são os podólogos – um nome que nem todos conhecem. Podólogo é o profissional que cuida dos nossos pés. Não é apenas um pedicure, que se limita a fazer as unhas. É um profissional preparado para tratar de calos, calosidades, fissuras, unhas cravadas e também manicure e pedicure.
Embora um decreto do Estado reconheça a sua atividade e permita que trabalhem sem constrangimento, aqui, no Rio de Janeiro, a fiscalização sanitária do município exige que esses profissionais paguem uma anuidade de R$ 400,00 ao Conselho Regional de Medicina e trabalhem sob a direção de um médico, a quem têm de pagar só para fazerem uma supervisão à distância.
Certamente, você deve estar surpreso. Primeiro, porque existe a profissão de podólogo. Segundo porque, apesar de fazerem cursos profissionalizantes e terem uma boa dose de conhecimento sobre o tratamento dos pés, esses profissionais estão sendo impedidos de trabalhar pela fiscalização sanitária, com base em um decreto de 2004.
Como sou vereador e tenho um bom trânsito com o prefeito César Maia, vou procurá-lo para expor as razões desse pessoal que só quer ganhar a vida honestamente, com suas habilidades e seu domínio de tudo que diz respeito aos nossos pés. Vou conversar também com o secretário municipal de Saúde.
Com certeza, não há necessidade de tanta exigência para quem se limita a tarefas de conhecimento específico. Se fossem apenas manicures e pedicures, não estariam enfrentando dificuldades.
Mas como evoluíram para tratamentos de tudo que diz respeito aos pés, podem ser reprimidos numa atividade que, francamente, dispensa uma faculdade de Medicina. O que é que você acha?

domingo, 27 de maio de 2007

A EDUCAÇÃO SEM MEIAS VERDADES

COLUNA DE PEDRO PORFÍRIO NO POVO DO RIO DE 28.05.07
Nada é mais negativo numa sociedade democrática do que a manipulação da informação. Esse mal é ainda maior quando parte de quem tem obrigação de transmitir conhecimento e formar gerações.
Estou falando da onda que fizeram contra a decisão do prefeito César Maia, através da Secretaria Municipal de Educação, de introduzir o sistema de ciclos nas escolas municipais, medida prevista na Lei de Diretrizes e Bases do ensino, apontada pelos especialistas sérios como a única fórmula de garantir a ESCOLA POSSÍVEL.
O sistema de ciclos é uma verdadeira revolução e, a meu ver, o único capaz de manter uma relação honesta e produtiva entre a escola, os professores, os alunos e seus pais.
É verdade que ele acaba com a avaliação através de provas e notas, mas isso não significa, como dizem más línguas, que o aluno poderá concluir o primeiro grau sem saber sequer assinar o próprio nome.
Quem pensa assim ou quem manipula as informações sobre o novo processo de avaliação para “celebrar a falência da escola pública” é ruim da cabeça ou age de má fé.
Na verdade, temos um grande avanço na medida em que oferecemos ao aluno a oportunidade de gostar de ir à aula, sem depender do bom humor ou da simpatia de um professor. Todo mundo sabe que uma verdadeira paranóia monitora o ensino hoje, com conseqüências trágicas.
Os alunos são compelidos a acharem que estarão garantindo o futuro na medida em que tenham notas para passar de ano. Ter uma nota razoável é tudo que o aluno quer, nem que para isso tenha que “colar”, fraudar, pedir ajuda ao colega.
A escola hoje é apenas isso: estudar para passar. Esse sistema joga na rua milhares de alunos, em todos os níveis, totalmente despreparados. De tal forma que inventaram até cotas para estudantes de escolas públicas, que concluem o segundo grau sem condições de entrar numa universidade do Estado.
Temos aí uma grave distorção que, além de tudo, é responsável pela desistência de muitos alunos, bons numas matérias, mas fracos noutras. De uma escola onde ter nota para passar é a única meta não se pode esperar muito. Porque nem sempre ter nota traduz conhecimento. E isso responde pela falta de pessoal qualificado para o mercado de trabalho, como falarei em outra oportunidade.

A LIÇÃO DE UMA DELEGADA INTELIGENTE

Coluna POVO DO RIO 27.05.07
Taí uma delegada que merece nossos aplausos. Seu nome: Patrícia Aguiar de Paiva Ribeiro, 30 anos, há seis na Polícia.
Ela comandou uma operação de inteligência (manchete do POVO de sexta-feira) que enfatiza sua atuação à frente de uma equipe homogênea, que espero não se perca por esses caminhos tortuosos.
Graças ao uso da tecnologia, ela estourou um esquema de desmanche de carros roubados e prendeu uma quadrilha chefiada por um policial. Essa gang era uma sofisticada organização criminosa, que roubava carros, desmanchava, fraudava documentos e ainda vendia os produtos dos roubos com certo requinte.
Os kits de gás, por exemplo, eram vendidos por um cabo do Corpo de Bombeiros, enquanto um outro larápio era especializado em negociar com proprietários que simulavam roubos dos seus veículos para receberem os seguros.
Na “Operação Savana”, ela, que agora está á frente da antiga Delegacia de Entorpecentes, reuniu um total de 55 policiais e chegou ao desmanche depois de colocar um GPS (aparelho que facilita o rastreamento) no veículo do chefe da quadrilha, que estava sendo investigado no sapatinho.
Mas a delegada Patrícia de Paiva e seu pessoal devem ser festejados por uma trajetória de fazer inveja: em três anos de trabalho, prenderam mais de cem bandidos SEM DAR UM TIRO, na técnica, segundo os métodos de quem realmente quer chegar lá e não de quem prefere matar, provocar tiroteios e outras encenações para fazer de conta que está combatendo o crime.
Desde que entrei numa redação – há 47 anos – aprendi que é esse tipo de policial que consegue resultados e faz bem à sociedade. No meu tempo de ÚLTIMA HORA, conheci o detetive Perpétuo, da década de 60, que nunca jogou uma bala fora.
Depois, na década de 70, vi o trabalho inteligente do detetive Jamil Warvar, que descobriu muitos casos “perdidos” sem recorrer ao bang-bang. O mais importante deles foi o assassinato de Claudia Lessin, morta por Michel Frank, um playboy milionário.
Só espero – repito – que a delegada Patrícia de Paiva não mude, como outros que se deixaram seduzir pelo canto da sereia, inclusive uma colega sua, cuja carreira acompanhei.
A sociedade precisa desesperadamente de policiais dessa têmpera, desse profissionalismo e desse caráter.

ACABOU SOBRANDO PARA A PF

Coluna POVO DO RIO 26.05.07
Pronto. Foi só a Polícia Federal mexer nas relações perigosas entre empreiteiras e políticos para o céu cair sobre a cabeça do seu pessoal.
Se deixar, vão acabar aprovando uma Lei no Congresso limitando sua atuação como nos velhos tempos: colarinho branco volta a ter imunidade e o povo que pague o pato.
Francamente, é possível que tenha havido algum tipo de excesso, como em qualquer outra operação policial. Mas por que só agora estão chiando?
A bem da verdade, a Polícia Federal ainda precisa de mais equipamentos e maiores recursos tecnológicos. Parte do seu pessoal bem que poderia fazer treinamentos mais sofisticados. Pelo que a gente vê, há sinais de um esforço sobre-humano nas suas investigações.
Há também muito constrangimento. Embora observem rigorosamente os processos legais e operem em todos os casos sob a direção do Ministério Público, mediante autorizações judiciais, seus investigadores sabem que ainda pisam em ovos, principalmente quando alcançam detentores de mandatos e titulares de poderes.
No caso, já nem é sobre a navalhada conhecida que estão reclamando. O medo é do que não foi divulgado e do que ainda pode ser apurado, no desdobramento inevitável dessa investigação que devia ter o apoio amplo, geral e irrestrito de todos, doa a quem doer, como disse o presidente Lula.
É que, como não poderia deixar de ser, nesse ambiente de promiscuidade, em que se paga muito mal ao funcionalismo público, desde o próprio cargo de Ministro, isso ia bater mesmo nas portas de alguns figurões.
A revista VEJA desta semana está publicando uma reportagem bomba sobre o presidente do Senado, Renan Calheiros.
Segundo a matéria, o s dono da Gautama, Zuleido Veras, foi quem bancou a campanha do senador quando disputou a eleição de governador, em 1990. Daí, nasceu uma íntima amizade, sobre a qual um dia o próprio senador ACM se referiu, para mandar Calheiros ficar caladinho.
A revista apontou outra construtora, a gigante Mendes Junior, que pagaria uma pensão de 12 mil reais e mais o aluguel de 4 mil e 500 reais para a jornalista Mônica Veloso, que tem uma filha de três anos com o presidente do Senado.
Isso, que provocou o maior qüiproquó ontem em Brasília, é obra da revista. Mas, com certeza, vai sobrar para cima da PF.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

FICA O DITO PELO NÃO DITO

Outro dia mesmo, o senador José Agripino disse, ao vivo e a cores, que não precisava de CPI para os estragos da “Operação Navalha”. Alegava que a Polícia Federal vinha fazendo esse trabalho com competência e que essa era uma crise no governo. Não podia ser levada para dentro do Congresso.
Ontem, deixou o dito pelo não dito. Por quê? Adivinhe. Não precisa fazer muito esforço. Está correndo uma boataria braba de que há pelo menos 29 parlamentares no caderninho do Zuleido, o “Charles Bronson” do Nordeste que ganhou uma grana preta com obras fantasmas e/ou superfaturadas.
Certamente a turma do deixa disso reavaliou. “É melhor trazer a investigação para dentro do Congresso e assumir o controle das informações antes que não sobre ninguém para contar a história”.
Espera-se agora que haja um grande acordo entre os políticos de todos os partidos, e até com a própria mídia, para dar novas tinturas às investigações, embora se fale a boca pequena que já há um novo listão de futuros algemados.
Na quarta-feira, o presidente da Câmara Federal fez uma patética reunião com os líderes de 19 partidos e propôs: a gente tem que fazer qualquer coisa para abafar essa história de que acabar sobrando para os deputados.
Nessa linha, o líder do governo, deputado José Múcio, do PTB pernambucano, fez um pronunciamento dramático ao definir o assunto como "um instinto de sobrevivência da espécie, do parlamento e do parlamentar. Se algo não for feito com muita coragem, acaba o mandato parlamentar".
O escândalo já está sendo objeto de chacotas na imprensa internacional. Alias, está desatualizado o jornal britânico “Financial Times” quando diz que o Brasil é o país do “rouba, mas faz”. Com essas cortantes revelações da “navalha” ficou claro que já aceitamos o “rouba, mas não faz” e a festa continua.
Disse o jornal inglês: “Os recentes escândalos provocaram aumento da desilusão da população com os políticos locais e nacionais do Brasil, onde a frase rouba, mas faz é freqüentemente usada em sinal de aprovação”.
De qualquer jeito, temos matéria farta para comentar. Afinal, como dizia Nikita Kruschev, ex-todo poderoso da ex-União Soviética, "Os políticos em qualquer parte são os mesmos. Eles prometem construir pontes, mesmo quando não há rios".
coluna@pedroporfirio.com

quarta-feira, 23 de maio de 2007

UMA CIDADE PRA LÁ DE BAGDÁ

Pra isto aqui virar Iraque só falta homem-bomba. Porque de resto esta cidade abençoada pelo Cristo Redentor, nosso candidato a Cristo Maravilha, já está pra lá de Bagdá.
Mas fala baixo. Pode alguém do morro achar um desesperado sem emprego, sem casa, sem comida e sem roupa lavada que se preste a ser o nosso dinamite.
Se você pensa outra coisa, o que leva um garoto das arábias a carregar uma bomba no próprio corpo é a falta absoluta de condições de sobrevivência digna. Digo isso porque estive lá. E por nossas favelas o que não falta é rapaz sem saber o que será do amanhã.
Aqui, a guerra é diferente. Não é uma guerra santa e nem tampouco houve desembarque de tropas estrangeiras afiadas até os dentes.
Aqui, informe-se aos incautos, a maior assassina é a bala perdida. Sobram armas e munições de parte a parte. E falta pontaria.
É como se fôssemos alvos do fogo amigo. Não há uma área protegida, não há espaço seguro em lugar nenhum. A polícia está dando prioridade à guerrilha nos morros, mas no asfalto também estamos expostos às balas da vez.
O Rio está tão conflagrado que acaba de registrar o primeiro caso de granada perdida. Foi no Morro do Juramento. Como não podia deixar de ser, a granada explode sempre do lado mais fraco. O petardo destelhou um barraco na Rua Tupiniquins e atingiu uma criança de dois anos e seus pais. Todos estão à morte.
Seguindo sua própria bússola, quase na mesma hora, a polícia matou dois caras no Morro do Urubu, a uns 10 kms de distância, e foi logo dizendo que eles eram os donos da granada perdida.
A polícia, aliás, pode se orgulhar de novos recordes no “pan” da morte. Nunca se matou tanto como nesses últimos três meses. Nem no tempo da gratificação faroeste.
Os números oficiais do Instituto de Segurança Pública que não me deixam mentir. E nem por isso, as modalidades de crimes caíram. Pelo contrário, segundo a mesma fonte, das 20 modalidades do catálogo, 16 aumentaram em relação aos meses anteriores.
A grande novidade é a coleção de balas perdidas: numa única batalha, a da Vila Cruzeiro e seus vizinhos do Complexo do Alemão, as balas perdidas fizeram meia centena de vítimas em 20 dias. Número igual ao dos mortos, com ampla vantagem para as tropas policiais.
coluna@pedroporfirio.com

terça-feira, 22 de maio de 2007

RABO PRESO É ISSO AÍ

Até outro dia, a qualquer sinal de falcatrua, mesmo que a Polícia Federal e o Ministério Público já estivessem com o mapa da mina, os nossos preclaros deputados e senadores corriam para pedir uma CPI.
Durante os últimos anos, o prato cheio do Congresso foi feito de comissões parlamentares de inquérito. Uma atrás da outra, ou melhor, uma ao lado da outro, em paralelo.
CPI dos correios, da compra de votos, do mensalão, dos sanguessugas, tudo e mais alguma coisa. Praticamente, essas CPIs não davam em nada, porque na hora do pega pra capar aparecia sempre a turma do deixa disso.
O próprio Valério, aquele careca cínico que comprou meio mundo, está por aí, lépido e fagueiro, sem ser incomodado por ninguém. Ele, aliás, ao contrário do que tem acontecido atualmente, nunca viu o sol nascer quadrado.
Em compensação, as CPIs davam tremendo Ibope para as televisões da Câmara e do Senado. E permitia que os seus integrantes mostrassem serviço, no papel de salvadores da pátria.
Agora, quando a Polícia Federal provocou esse “furacão” que tirou o telhado de muita gente, até de um ministro do STJ, e passou a navalha na carne da gente fina dos governos, pegando ministros e governadores com a mão na massa, nem fale em CPI que você vai arranjar uma tremenda encrenca.
Precisa ver as declarações do senador Agripino Maia, líder dos Democratas (ex-PFL): “Não, não precisa que a gente se meta nessa, porque a Polícia Federal já está levantando tudo”.
É mesmo? Por que será que a quase totalidade dos líderes partidárias não querem nem ouvir falar na “CPI da Navalha”, começando pelo presidente do Senado, Renan Calheiros e pelo todo poderoso José Sarney, padrinho do ministro Silas Rondeau, o tal que teria recebido grana preta pelo elevador privativo?
Por que será? Adivinhe e ganhe um doce. Um doce e olhe lá, porque qualquer um de mediana inteligência sabe que a maioria dessa turma que ganhou seu voto está de rabo preso nessa investigação. E se não tiver nessa empreiteira, vai estar noutra, que a PF já investiga, porque o exercício do mandato degenerou geral e ninguém quer ver seu nome nessa fita de terror.
Embora você acabe votando de novo nesses mesmos trapalhões, eles, no momento, preferem estar longe duas luzes dos holofotes. Porque os rabos presos cresceram mais da conta e estão à mostra.

coluna@pedroporfirio.com

segunda-feira, 21 de maio de 2007

A CORDA ARREBENTA SEMPRE DO LADO MAIS FRACO

Ao lado da política de contenção da inflação, baseada no arrocho salarial para conter o consumo e, assim, forçar preços baixos, há um outro fator que tem pesado muito no aumento do desemprego: a utilização de tecnologias modernas, graças às quais se pode produzir mais com o menor número de trabalhadores.
Para fazer frente a esse problema, o governo do presidente Lula tem sido influenciado pela idéia de que é preciso fazer uma reforma trabalhista, que reduza os direitos e o salário real dos empregados.
A meu ver, essa não é a saída para abrir postos de trabalho no mercado. Veja o que se passa no setor automobilístico,onde investimentos maciços e duplicação da capacidade produtiva não resultaram em geração de novos empregos.
Ao contrário, com os investimentos feitos as empresas puseram em prática um amplo programa de modernização e automação, cortando milhares de postos de trabalho. Para se ter uma idéia do estrago ocorrido neste setor, basta dizer que, na década de 80, para uma capacidade de produção de um milhão e quinhentos mil veículos, as montadoras empregavam 140 mil empregados. Hoje, para uma capacidade de produção de três milhões de veículos, as montadoras empregam apenas 90 mil trabalhadores.
É muito fácil imaginar que com uma “reforma” que acabe com o 13º salário, com o adicional de férias e outros benefícios que fazem parte da renda do trabalhador, é um santo remédio.
Quando dizem que temos o maior volume de encargos sociais (o empregado custaria o dobro do seu salário a uma empresa) esquecem que o que se recebe é muito pouco em relação a outros países.
Mesmo com a queda do dólar, moeda que se usa para fazer as comparações, o nosso é um dos menores salários mínimos do mundo. Até prova em contrário, só a Serra Leoa, na África, e o Haiti, no Caribe, pagam menos como piso.
O mais grave é que existe no Brasil uma velha prática de que a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. Como nossos sindicatos estão desmobilizados – alguns desacreditados – vai acabar sobrando para o assalariado. E aí a crise será ainda maior, porque vai faltar quem tenha dinheiro para comprar alguma coisa.

coluna@pedroporfirio.com

sábado, 19 de maio de 2007

LEMBRANDO A POLÍTICA SOCIAL DE GETÚLIO VARGAS

Não sendo economista, mas com um bom caminho andado, posso, do alto dos meus 64 anos, afirmar que é falso o dilema de que falei na coluna de ontem: não há conflito entre a contenção da inflação e o desenvolvimento que gera mais empregos, ,melhores salários, mais riqueza e mais atividade econômica.
Poderia citar em defesa dessa afirmativa exemplos de outros países, que conseguem aumentos significativos em seu crescimento, ampliam as oportunidades de trabalho, e mantêm a inflação sob controle.
Mas prefiro ficar por aqui mesmo com o exemplo do segundo governo do presidente Getúlio Vargas. Tendo assumido em 1951, Getúlio viu que a inflação apresentava uma alta de 12 para 20% ao ano, mesmo com o salário mínimo congelado durante todo o governo do seu antecessor, o general Dutra.
Em 1952, após estudos do Ministério do Trabalho, optou por dar um aumento que repôs as perdas de 8 anos. Foi uma festa para os assalariados, porque, naquela época, todos os salários eram calculados com base no mínimo.
O reajuste despertou a reação dos setores mais conservadores, mas nem de longe provocou a explosão inflacionária do que falavam. Ao contrário, reanimou a economia e abriu caminho para a consolidação da era industrial, com o surgimento de milhares de empresas.
Colocando-se do lado dos mais fracos, Getúlio sofreu muitas pressões, que levaram à demissão do ministro do Trabalho, João Goulart, depois de um ameaçador manifesto assinado por um grande número de coronéis.
No entanto, mesmo demitindo aquele que seria seu herdeiro político, o presidente Vargas concedeu novo aumento do mínimo de 100% em 4 de julho de 1954, 50 dias antes de ser levado ao dramático suicídio.
Quando ele morreu, o valor médio do salário mínimo era de R$ 590,57, comparando-se aos preços de hoje. Era tempo em que todo mundo tinha emprego.
O desemprego decorre também da modernização da indústria e dos serviços. Porque quem vive o desafio de manter empresas com altas taxas de juros e impostos que representam quase 40% do seu faturamento não vê outro caminho senão trabalhar com o menor número possível de empregados. É disso que falarei amanhã.

coluna@pedroporfirio.com

sexta-feira, 18 de maio de 2007

BINGOS: TÊ-LOS OU NÃO TÊ-LOS, EIS A QUESTÃO

O presidente Lula fez muito bem ao pedir ao Congresso – onde se fazem as leis – que decida de uma vez sobre a legalização ou não dos bingos no país. “Ou proíbe ou regulamenta. O que não pode é ficar essa indústria de liminares”.
Na quarta-feira, o ministro Carlos Lupi, do Trabalho, recebeu representantes dos trabalhadores dessas casas de jogo, que estavam à frente de uma concentração de 12 mil atingidos pelas últimas medidas, decorrentes da descoberta de um esquema criminoso de concessão de liminares a peso de ouro, para que as casas funcionassem sem constrangimento.
A palavra está com os deputados e senadores. Mas, desde já, precisanos fazer uma reflexão honesta, sem a qual teremos tão somente a massa ameaçada de desemprego servindo de bucha de canhão para interesses estranhos.
O ministro chegou a cogitar da possibilidade dos bingos serem administrados pela Caixa Econômica, como acontece com outros jogos, da loteria esportiva à mega-sena.
Como titular da pasta do trabalho, sua principal preocupação é evitar que no mínimo 40 mil empregados sejam postos no olho da rua, numa hora em que qualquer emprego é uma preciosidade.
O presidente Lula achou melhor transferir a responsabilidade da decisão para o Congresso. Ele, que tem informações privilegiadas a respeito do problema, também não sabe o que é certo: legalizar ou proibir.
Em princípio, é difícil deixar de considerar o problema social provocado pelo fechamento dos bingos. Mas estarão eles nas mãos certas, dedicados exclusivamente à venda de um “entretenimento” que atraia principalmente quem tem tempo ocioso, como os idosos?
As investigações da Polícia Federal detectaram uma estreita ligação entre as casas que permaneciam funcionando e um milionário esquema de corrupção, envolvendo desembargadores federais e até um ministro do STJ.
Os trabalhadores, com certeza, não têm nada com isso. Mas quem garante que a legalização de casas de jogos, onde se ganha muito dinheiro, não abre caminho para uma nova rotina de propinas, até porque, dependendo de quem administre, muitas fraudes podem acontecer ali, como se diz dos caça-níqueis?
Nenhuma decisão pode deixar de considerar os empregos ameaçados. Mas também não há como, por isso, facilitar qualquer esquema de corrupção.
coluna@pedroporfirio.com

A VIOLÊNCIA CEGA CONTRA OS HOMOSSEXUAIS

A cada três dias um homossexual é assassinado no País por sua orientação sexual. A cada três minutos um GLBT é vitima de violência. 100% das travestis já sofreram discriminação e exclusão nas escolas, levando muitas adolescentes para a prostituição e marginalidade social. 35% de gays, lésbicas e travestis já foram expulsos de casa. 30% dos estudantes acreditam que homossexualidade é doença. 95% dos padres, bispos e pastores no Brasil usam o rádio, a televisão e o jornal, diariamente para pregar o ódio e a discriminação aos homossexuais,
Esses dados, levantados pelas jornalistas Bianca Carillo e Juliana Ramos mostram uma outra face de uma cultura de violência que se manifesta de forma perversa, porque enrustida e sob proteção de um ambiente alimentado pela intolerância e a incompreensão.
Quando os homossexuais vão às ruas em manifestações cada vez mais numerosas – em nome do orgulho gay – eles expressam uma explosão acumulada há séculos em todas as civilizações e em todas as religiões.
É como se saíssem dos esconderijos e dos guetos existenciais para dizer: nós também somos gente, são profissionais, somos empresários, queremos ser respeitados segundo os direitos da cidadania.
E não sou poucos os que assumem essa condição aqui entre nós, mesmo ocupando cargos públicos, como o prefeito de Parati e o secretário municipal de Assistência Social do Rio de Janeiro.
Números também colhidos pelas duas jornalistas são incisivos: de acordo com dados do movimento, existem 18 milhões de homossexuais assumidos no Brasil. No ano passado, 6 milhões de pessoas participaram das paradas, 3 milhões se declararam GLBTs.
Na medida em que essa realidade se torna cada vez mais pública, aumenta a violência daqueles que, como Freud explicaria, investem furiosamente contra os gays, como que tentando espantar o gay que existe neles.
No entanto, felizmente, as vozes da lucidez e do humanismo falam mais alto. Hoje lembramos a decisão tomada no dia 17 de maio de 1990 pela a Organização Mundial de Saúde, que retirou o “homossexualismo” do código internacional das doenças.


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quarta-feira, 16 de maio de 2007

RELAÇÕES AFETIVAS SEM CENSURA

No julgamento de uma ação de inconstitucionalidade contra a minha lei que garantia pensão para o parceiro do mesmo sexo na Prefeitura do Rio de Janeiro o desembargador Paulo Ventura, relator, fez uma defesa brilhante da iniciativa pioneira.
Referiu-se, então, ao que chamou de expressão do “direito novo”, um olhar moderno e humanizado sobre os fenômenos sociais e existenciais que se incorporam ao sistema jurídico brasileiro.
De fato, quando em 2001 propus a concessão de pensão aos parceiros do mesmo sexo, no âmbito do funcionalismo municipal (o que me cabia como vereador) parti do princípio de que o servidor contribui compulsoriamente, estabelecendo fonte de uma pensão, seja ele (ou ela) casado ou não.
Trabalhei sobre a novidade da união estável, bandeira de Nelson Carneiro que se incorporou à Constituição. O que valia para a união entre marido e mulher cabia também para aqueles que optaram por uma relação de fato no âmbito do mesmo sexo.
Inspirei-me, então, na minha própria revolta diante de uma injustiça. Um pintor de família tradicional, que por ela havia sido discriminado, fez uma vitoriosa carreira com o apoio do seu parceiro homossexual.
Quando morreu, essa mesma família não teve constrangimento em correr atrás de sua fortuna acumulada, deixando o verdadeiro amigo, com quem vivera vinte anos, de mãos vazias.
Não me pareceu essa uma situação justa. Havia uma relação homo afetiva construída ao longo dos anos. Como desconhecê-la?
Hoje são milhões os casos em todo o mundo de casais do mesmo sexo. Tentar desconhecer esse fato é querer tapar o sol com a peneira. Esse tipo de relação cobra respeito da sociedade através de grandes manifestações, como as paradas do orgulho gay.
Ser homossexual é, portanto, uma orientação de cada um. Integrá-lo no mundo do direito é uma obrigação de todos os que lutam por uma sociedade justa, sem censuras hipócritas e sem repressões movidas por velhos preconceitos.
É isso que vou defender nesta quarta-feira às sete e meia da noite na Universidade Estácio de Sá de Copacabana, atendendo a convite de sua direção e do seu Diretório Acadêmico.

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terça-feira, 15 de maio de 2007

NERVOS DE AÇO PARA VIVER EM UMA FAVELA

Você sabe o que ter nervos de aço? Sabe que isso é o mínimo que se requer para quem vive hoje numa favela?
Nesse domingo, ao cair da tarde, fui ao Jacarezinho para assistir á posse da nova diretoria da Associação de Moradores, cujo presidente, meu amigo Vado, foi reeleito.
O ato aconteceu na sede da Escola de Samba, de frente para a Avenida Dom Helder Câmara. Portanto, não precisava nem entrar na comunidade.
Mas a esquina dessa via com a Democráticos, na entrada pela “prainha”, já é considerada uma área de risco. De vez em quando é lá que começam as fuzilarias.
Ficou claro que hoje existe uma espécie de refúgio domiciliar. A maioria dos moradores só sai de casa até a hora do almoço, sábados e domingos. Ou então quando vai trabalhar durante a semana.
Tudo isso porque ninguém se garante e ninguém garante a vida de ninguém. A qualquer hora, as balas podem zunir de um lado para outro, independente do movimento humano, do passar das pessoas e de uma vida própria na comunidade de 60 mil habitantes, que tem uma feirinha a semana inteira e um comércio maior do que o do bairro do Jacaré.
A polícia vai para reprimir o tráfico, mas as balas não escolhem vítimas. Por uma certa fatalidade, pegam logo quem não tem nada a ver com o peixe. É terrível o estado de ânimo de todos, sobretudo das crianças, que estudam fora da comunidade: além de dois CIEPs que ainda funcionam em tempo integral e são dirigidos com muito carinho, há outras cinco escolas públicas nas imediações.
Não dá dúvida de que existe um bom número de traficantes na favela. Mas qual é a culpa dos moradores? O combate a eles tem que ser assim, no estilo faroeste?
Quando candidato, o governador Sérgio Cabral criticava esse tipo de operação, capitaneada por um veículo blindado – o Caveirão – cujos atiradores ninguém vê.
No entanto, não tem sido diferente. A diferença em relação ao governo anterior é que antes ainda existiam programas sociais, a “Casa da Paz” ainda funcionava.
Neste momento, como constatei com meus próprios olhos, a população do Jacarezinho, 99,9% de trabalhadores e pessoas pacíficas, só conhece a polícia nervosa como única face de um Estado que parece suspeitar de todos.
É isso que acaba fortalecendo ainda mais os foras da Lei.

coluna@pedroporfirio.com

segunda-feira, 14 de maio de 2007

A CARTILHA DOS TRISTES E DEPRIMIDOS

Agora que o Papa da idade Média já se foi, vamos fazer um balanço dos seus desejos em relação ao Brasil, país soberano, laico, onde cada um pode escolher sua religião e até mesmo pode não ter religião nenhuma.
Se os católicos seguirem rigorosamente sua cartilha, teremos os seguintes mandamentos a serem cumpridos sem direito a queixas ao bispo:
1, Nenhum jovem pode pensar em ter relações sexuais antes do casamento. Rapazes ou moças estarão cedendo a tentações do pecado se ousarem “ficar” juntos. As moças, segundo dom Dimas, bispo auxiliar aqui do Rio de Janeiro, não serão diferentes das prostitutas profissionais se “ficarem” com seus namorados.
2, Não se pode admitir o uso de embrião humano para nada, nem para curar doenças ou salvar vidas. Uma vítima de acidente sabe que pode se recuperar inteiramente com a chamada célula-tronco. Mas se recorrer a isso estará cometendo pecado mortal, sujeito à excomunhão e à condenação de sua alma.
3, Nenhum católico de verdade poderá recorrer a métodos anticoncepcionais, nem mesmo à camisinha. Fazer ligadura, nem pensar. Se não quiser ter mais filho, o casal tem que se abster da vida sexual e agüentar firme.
4. As escolas deverão ser obrigadas a ter aulas de religião, segundo o catecismo católico. O ensino, portanto, já será direcionado para que todos os brasileiros sejam católicos de carteirinha.
5. O governo deverá estar ligado à Igreja, num “Estado confessional”. Isso quer dizer que todas as suas iniciativas deverão ser abençoadas pelo clero.
6. Além disso, não poderá cobrar impostos de nada ligado à Igreja. As outras atividades que respondam pelas responsabilidades do governo com a população.
7. Ai de quem admitir sequer tocar em assuntos como aborto, homossexualismo, divórcio e liberdade sexual. Tudo isso acontece há décadas em nosso país. Mas o que não foi legalizado deve continuar sendo praticado por baixo dos panos.
Bem, ainda bem que ninguém vai levar essa cartilha a sério. Nem mesmo os católicos mais envolvidos com a Igreja, até porque há muitos padres lúcidos no Brasil, que já atravessaram o túnel do tempo.
Se não, essa Lei Seca do Papa XVI iria nos transformar na nação dos tristes e deprimidos.

domingo, 13 de maio de 2007

TUDO MUDOU. SÓ BENTO XVI NÃO SABE


MINHA COLUNA NO JORNAL POVO DO RIO DE 13 DE MAIO DE 2007

Na campanha eleitoral de 1960, dois candidatos disputavam a Presidência: o marechal Lott, com o apoio do presidente JK, e o oposicionista Jânio Quadros, ex-governador de São Paulo.
Eu tinha 17 anos, mas, como todo jovem politizado, estava engajado na campanha de Lott, que tinha João Goulart como vice-presidente.
Então, aprendi que política é para quem tem sangue de barata. Lott dizia o que pensava, mesmo que isso fosse lhe tirar voto. E como muito do que dizia contrariava velhos conceitos, como dizer que açude não resolveria o problema da seca no Nordeste, ele ia se afundando por si.
De tal forma que, nós, lottistas, já sabíamos. Se ele falasse em todos os lugares, o Jânio seria eleito por unanimidade.
Lembro desse episódio a propósito da visita do Papa Bento XVI a São Paulo. Cada vez que ele abre a boca, deixa a multidão de católicos na maior saia justa. Quando ele for embora, terá conseguida uma desastrosa proeza: o número de fiéis de carteirinha do catolicismo vai continuar caindo, agora com o incentivo de seu discurso como o Papa que veio da idade Média.
É uma pena, porque há padres e bispos no Brasil que tanto bem fazem ao país e ao seu povo. Nos últimos anos, inclusive nos tempos brabos da ditadura, cardeais como Dom Evaristo Arns e bispos como Dom Helder Câmara , expuseram-se sem medo na defesa dos perseguidos políticos, alguns dos quais também eram padres.
Segundo o noticiário, o chefe do Estado do Vaticano, que tem embaixadores e tudo o mais, apesar de existir num espaço de um quilômetro quadrado, encostou o presidente Lula contra a parede, com um rosário de exigências da pesada.
Traduzindo em português claro, o papa alemão quer que o Brasil volte ao tempo do Império, quando era oficialmente um “Estado Católico”, atrelado à sua Igreja. Quer mais: ensino religioso (leia-se católico) obrigatório nas escolas do país e até isenção de impostos para as atividades ligadas à Igreja, inclusive dos seus caríssimos colégios.
Claro que o Presidente ia dizer um rotundo não. E olha que Lula é católico praticante. Mas, já estamos no Século XXI e isso só Bento XVI e os seus seguidores mais fanáticos não vêem.

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